5. INTERNACIONAL 9.1.13

ELES J BRIGAM PELO ESPLIO
Um encontro em Havana tenta a reconciliao entre os herdeiros do venezuelano Hugo Chvez, impossibilitado de tomar posse no dia 10 por causa de um cncer.
LEONARDO COUTINHO E TATIANA GIANINI

     D-se como certo que o venezuelano Hugo Chvez no comparecer  cerimnia de posse do seu quarto mandato presidencial, em 10 de janeiro. Internado em Cuba desde 11 de dezembro, quando passou por uma cirurgia para extirpar um tumor da regio plvica, o coronel agora recebe tratamento contra uma pneumonia adquirida no perodo em que ficou entubado. Uma hiptese para a infeco  que seu sistema imunolgico estava corrodo pelo uso excessivo de esteroides, ministrados para que ele suportasse a campanha eleitoral de 2012 apesar da doena. Os relatos da equipe mdica revelam que a retirada de 43 centmetros do intestino de Chvez no impediu que as clulas cancerosas se alastrassem para outros rgos e alcanassem a medula ssea. Ele teria de se submeter a mais uma cirurgia e a um transplante de medula, mas no tem foras para suportar as intervenes.
     Cientes de que, ainda que sobreviva, Chvez ter de passar os seus derradeiros dias longe da vida pblica, seus principais herdeiros polticos  o vice-presidente Nicols Maduro e o presidente da Assembleia Nacional, Diosdado Cabello  reuniram-se na quinta-feira passada em Cuba para tentar uma trgua na disputa pela sucesso, com a bno do chefe. O acordo, que vem sendo chamado de Pacto de Havana, foi desenhado pelo ditador cubano Ral Castro. Ele teria convencido os rivais Maduro e Cabello a ceder em suas ambies polticas em favor de uma vitria dos chavistas nas novas eleies presidenciais, que devero ser convocadas em trinta dias se Chvez no comparecer  posse. Preferido dos irmos Castro, Maduro largou na frente por ter sido apontado pelo prprio Chvez como seu sucessor. Sem interlocuo com as Foras Armadas, porm, o ex-sindicalista precisou barganhar. Ex-companheiro de armas de Chvez, Cabello tem influncia sobre uma parcela da caserna venezuelana e da mquina partidria do chavismo. O resultado da eleio para a presidncia da Assembleia, marcada para sbado 5, serviria como um teste do Pacto de Havana. Se Cabello perdesse, ficaria claro que Maduro lhe passou a perna, consolidando, assim, o racha nas fileiras chavistas. Se reeleito Cabello, seria um sinal de que ele e Maduro chegaram a um acordo. Nesse cenrio, o ex-militar assumir a Presidncia do pas a partir do dia 10, convocar o novo pleito e apoiar a candidatura de Maduro.
     A reunio em Havana  da qual tambm participaram Adn Chvez, irmo do presidente e governador do estado de Barinas, os ministros Rafael Ramrez, de Energia e Petrleo, e Jorge Arreaza, de Cincia e Tecnologia e genro de Chvez, e Cilia Flores, procuradora-geral da Repblica  remonta  cena, muito comum em pinturas renascentistas, do rei no leito de morte rodeado por cardeais, nobres e herdeiros. Que Cuba tenha sediado a inslita reunio  representativo dos interesses envolvidos. Para os irmos Ral e Fidel Castro, a perpetuao do chavismo  mais vital do que para os prprios chavistas. Sem um homem de confiana  frente do Palcio de Miraflores, a sede do governo venezuelano, os 100.000 barris de petrleo dirios doados por Chvez deixaro de abastecer a ilha e, consequentemente, de sustentar o regime castrista. Maduro , dos herdeiros chavistas, o mais alinhado ideologicamente a Cuba. J Cabello sempre foi contrrio  influncia cubana em seu pas. Tanto que, em 2008, Ral Castro entregou a Chvez um dossi sobre o envolvimento de Cabello com o narcotrfico. Depois disso, Chvez reduziu seu poder poltico, sem, no entanto, impedi-lo de seguir com as atividades ilcitas. As ligaes criminosas do deputado chavista podem ter sido exploradas recentemente por Maduro em sua queda de brao com o rival. Na semana passada, o jornal espanhol ABC revelou que o embaixador da Venezuela na Organizao dos Estados Americanos, Roy Chaderton, procurou o governo americano para anunciar que em um possvel governo de Maduro o pas aceitaria a reabertura de uma unidade da Agncia Antidrogas dos Estados Unidos (DEA) em Caracas. Pode-se interpretar a manobra de duas maneiras. A primeira  que, ao demonstrar boa vontade com os americanos, Maduro busca respaldo internacional ao seu governo. A segunda  que a presena da DEA na Venezuela seria um constrangimento para Cabello. O deputado foi citado como o chefe de uma rede de narcotrfico composta de vrios militares nos depoimentos de Eladio Aponte, um ex-juiz da Suprema Corte da Venezuela, aos agentes da prpria DEA. Aponte est asilado nos Estados Unidos.
     Seja quem for o candidato chavista  sucesso, ter facilidade em enfrentar os presidenciveis da oposio, pois ser beneficiado pela comoo popular que a morte de Chvez ou seu definhamento interminvel vai causar. A doena impulsionou a idolatria pelo presidente. Por todo o pas, venezuelanos se renem para rezar pela sade de Chvez. Na semana passada, havia viglia s portas do Palcio de Miraflores. O apelo emocional do sofrimento de Chvez j est sendo explorado por seus herdeiros polticos. Maduro chegou a chorar em pblico. Nas eleies estaduais do ms passado, ocorridas poucos dias depois da mais recente cirurgia em Cuba, os candidatos pr-Chvez o trataram como um mrtir que sacrificou a prpria sade para servir aos pobres. 
     Na tradio caudilhista latino-americana, o poder do regime emana da adorao popular ao lder. Quando ele morre, o fenmeno se acentua. Foi assim com Juan Domingo Pern, na Argentina, Getlio Vargas, no Brasil, e Porfirio Daz, no Mxico. O prprio Chvez estimulou a idolatria por Simn Bolvar, ao mesmo tempo em que se apresentava quase como uma reencarnao do heri da independncia venezuelana. Os regimes populistas nutrem-se da morte de seus caudilhos, e para tanto estimulam a idolatria, explica Marcos Novaro, diretor do Centro de Pesquisas Polticas, em Buenos Aires. Dessa forma, ao mesmo tempo em que exaltam o caudilho, denigrem os inimigos contra os quais ele lutou em vida, diz Novaro. Foi o que ocorreu na Argentina aps a morte de Nstor Kirchner, em 2010. A presidente Cristina Kirchner usou a viuvez para recuperar a popularidade e se reeleger em 2011. Entre outros rituais de idolatria, ela mandou erguer um mausolu de 11 metros de altura em Ro Gallegos, capital da provncia de Santa Cruz, com vidro blindado e escadaria de mrmore para enterrar o corpo do marido.
     Chvez foi alm. Ele preparou em vida sua martirizao pstuma. Em 2011, justamente quando havia sido diagnosticado com um cncer, ele mandou construir em Caracas um suntuoso mausolu de linhas contemporneas, que imita a vela de um barco. Com 50 metros de altura e revestido de cermica branca, o local a princpio deveria abrigar os restos de Bolvar. A inaugurao estava marcada para 17 de dezembro, aniversrio da morte do dolo de Chvez, mas foi suspensa sem nenhuma explicao. Os venezuelanos suspeitam que o governo esteja reservando o evento para a chegada do novo inquilino do sepulcro, o prprio Chvez. Em certas republiquetas, no h melhor palanque eleitoral do que o enterro de um caudilho.

MORTE ADIADAS
A oposio venezuelana teme que, quando Chvez sucumbir ao cncer, seus partidrios posterguem o anncio da morte por razes polticas. Isso j ocorreu com governantes de outros pases, fosse para fazer com que a data coincidisse com a morte de alguma figura histrica, fosse para acertar os ponteiros da sucesso.

FRANCISCO FRANCO
ESPANHA
Oficialmente, o ditador faleceu pouco depois da meia-noite do dia 20 de novembro de 1975, no aniversrio da morte do fascista Primo de Rivera, idolatrado pelo regime de Franco. Alguns historiadores afirmam, porm, que o espanhol morreu no incio da noite do dia anterior, 19.

JOSIP BROZ TITO
IUGOSLVIA
Internado em janeiro de 1980, o ditador comunista passou quatro meses ligado a aparelhos at que sua morte fosse divulgada. Seus assessores temiam que, sem ele, o delicado arranjo poltico que unia as diversas etnias do pas russe. De fato, s a influncia sovitica foi capaz de manter o pas coeso at 1991, quando se iniciou uma guerra civil.

TANCREDO NEVES
BRASIL
Internado s vsperas de assumir a Presidncia, em 14 de maro de 1985, teve o bito anunciado em 21 de abril. A data coincidia com o aniversrio da morte de Tiradentes. Dois anos depois, uma reportagem de VEJA revelou que Tancredo na verdade morrera no dia 20.

KIM JONG-IL
COREIA DO NORTE
Aos 69 anos, o ditador morreu de ataque cardaco fulminante em 17 de dezembro de 2011, mas o fato s se tornou pblico dois dias depois, para dar tempo de concluir, nos bastidores, a transferncia do poder para seu filho Kim Jong-un.


